sábado, 18 de julho de 2009

domingo, 12 de julho de 2009

sobre o que é ser jornalista, por Weber e Cohen

Internet não substitui o repórter
Roger Cohen (colunista, analista político)

Logo após a 1ª Guerra Mundial, o sociólogo alemão Max Weber proferiu uma conferência em Munique sobre jornalismo. "Nem todos percebem que escrever um texto jornalístico realmente bom exige tanto do nosso intelecto quanto um trabalho acadêmico", disse ele aos estudantes. "Isso se aplica especialmente quando estamos reunindo material para um artigo que tem de ser escrito no momento e tem de ter repercussão imediata, mesmo sendo produzido em condições totalmente diferentes de quando realizamos uma pesquisa acadêmica. No geral, ignoramos que a verdadeira responsabilidade de um jornalista seja muito maior do que a de um acadêmico."

Sim, jornalismo é uma questão de gravidade.
A tendência hoje é a de destruir a reputação em vez de elogiar a mídia.

Em meio aos gritos de doutrinação partidária envolvendo a posse do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, e os toques de sinos anunciando a morte da imprensa, uma verdade fundamental se perde: a de que ser jornalista é ser testemunha dos fatos. O resto é decoração.

Ser testemunha dos fatos significa estar presente. Nenhum buscador na internet consegue transmitir o odor de um crime, o tremor no ar, os olhos que ardem, os ecos de um grito.Nenhum buscador de notícias vai lhe falar sobre a cidade devastada suspirando ao anoitecer, nem dos gritos desafiadores ouvidos noite adentro. Nenhum milagre da tecnologia pode reproduzir essa sensação de boca seca que o medo causa. Nenhum algoritmo vai capturar a dignidade sem alarde, não vai provocar a carga de adrenalina que se funde com a coragem nem expor as marcas ainda frescas de uma chicotada.

[...]

Nós, jornalistas, devemos seguir adiante. É o que costumamos fazer, como voyeurs insaciáveis. Mas uma vez em mais ou menos uma década isso não acontece. É como se estivéssemos apaixonados. Mas o objeto do nosso amor se vinga, vira o jogo e não nos deixa ficar.
Fui um dos últimos jornalistas ocidentais a deixar Teerã. Ignorei a revogação do meu visto de jornalista e permaneci ali enquanto foi possível. Fiquei profundamente revoltado com a submissão ao grupo que cerca Ahmadinejad, que se apossou do poder quebrando o equilíbrio das instituições da revolução e cujo objetivo ficou claro: afastar qualquer testemunha ocular do crime.

[...]

Jamais Ahmadinejad falará novamente em justiça sem ser arruinado pelo efeito Neda - a imagem dos olhos sem expressão, a vida se extinguindo e o sangue escorrendo pelo rosto da jovem manifestante Neda Agha Soltan, baleada no peito em Teerã, no dia 20. O Irã oprime o povo com sua tragédia. Foi insuportável partir. Ainda é. As imagens multiplicam-se pela internet, mas a mídia tradicional, disciplinada para destilar esses fatos, se omitiu.O mundo ainda observa.

Nós, americanos, quando celebramos nosso Dia da Independência, no dia 4, deveríamos ter nos colocado do lado do Irã, recordando a primeira revolução democrática na Ásia, ocorrida em 1905, justamente no Irã.

[...]

De um lugar distante ainda ouço esses sons e sinto como se essa distância fosse uma traição não só a todas essas corajosas vozes que podem ser ouvidas noite adentro, mas também à "verdadeira responsabilidade" de um jornalista.

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090712/not_imp401485,0.php


Meu Deus.
eu precisava tanto ler algo assim num dia como hoje.
Que as palavras de Weber nos acompanhem.
E QUE AS PESSOAS FINALMENTE SE CONVENÇAM DE QUE:

1) Michael Jackson morreu, e que não há mais NADA que se possa fazer a respeito.
2) o mundo NÃO SE RESUME A MICHAEL JACKSON! (SIM, VOCÊ CONSEGUIRÁ SOBREVIVER SEM ELE VIVO!).

3) EXISTEM PROBLEMAS MUITO MAIS GRAVES DO QUE A MORTE DE MICHAEL JACKSON. Sem desrespeito à morte dele - ele era sim o rei do pop e continuará sendo peça singular na história da músicas - mas.. PORRA. Pessoas morrem diariamente, com histórias tão ou MUITO mais trágicas que a de Jackson - de fome na África, pelas guerras do Oriente Médio, nos tiroteios da favela Paraisópolis e nas ruas cariocas - acontecem DIARIAMENTE, e nada muito gritante é feito além de míseras linhas no jornais, ou poucos segundos nos telejornais diários (e olha lá). África ainda é clichê, mas parece que a maioria não está muito preocupada em tirar a África, o Oriente Médio e a violência das metrópoles brasileiras do cerne de questões como a violência, a miséria e a pobreza.

4) Michael Jackson está tão em pauta não só por seu peso na história da música, mas porque suahistória e suas tragédias pessoais continuam dando lucro e sua morte foi mais um episódio do SHOW BUSINESS que constituiu toda a sua existencia.

então, se você é fã ou gostava de Jackson, DESLIGUE A PORRA DA TV e não veja programas que sustentam as especulações sobre as causas da morte dele, ou comentem as VELHAS polêmicas que permearam a existencia do caçula do Jackson Five. Assim, VOCE NÃO ESTARÁ CONTRIBUINDO PARA fazer também da morte dele mais um capítulo lucrativo para os tablóides e para a indústria musical - que fizeram de Jackson o rei do pop, o pior dos pedófilos, um cruel abusador de criancinhas e agora um herói, bondoso, tímido, cheio de esquisitices - que continuará sendo visto por toda essa indústria apenas como uma cifra milionária $$$$$$, e não como uma PESSOA, vítima do sucesso e pertencente a uma família desestruturada (a cujo pai não consegui ainda designar um adjetivo propício que resumisse a sua imundície).


Voltemos à realidade. Discutemos Irã , Honduras, Oriente Médio, Obama na África, violência no RJ e em SP - responsável de fazer vítimas DIA APÓS DIA - a lama do Senado, a destruição da Amazônia e todos tantos assuntos não impressos nos jornais.


E deixemos Jackson FINALMENTE descansar em paz, pela primeira vez que seja.

sábado, 11 de julho de 2009

sobre Honduras


NESTA HORA

Nesta hora limpa da verdade
é preciso dizer a verdade toda
Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se invoca o povo



Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exílio
E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade





Meia verdade é como habitar meio quarto
Ganhar meio salário
Como só ter direito
A metade da vida


O demagogo diz da verdade a metade E o resto joga com habilidade
Porque pensa que o povo só pensa metade
Porque pensa que o povo não percebe nem sabe
A verdade não é uma especialidade
Para especializados clérigos letrados
Não basta gritar povo é preciso expor
Partir do olhar da mão e da razão
Partir da limpidez do elementar

Como quem parte do sol do mar do ar
Como quem parte da terra onde os homens estão
Para construir o canto do terrestre
- Sob o ausente olhar silente de atenção
- Para construir a festa do terrestre

Na nudez de alegria que nos veste

["Sophia de Mello Breyner Andresen in O Obra Poética III"]



quebrar a Constituição é ilegal. Golpe militar também.

Por mais que se queira defender a Constituição, sendo filhos ressentidos da ditadura, não é de estranhar que ela ainda nos cause repulsa e nos faça temer o que virá.

Não tenho opinião totalmente formada ainda.
Temendo que outros Chávez apareçam América Latina afora.. e queiram se perpetuar no poder.
Tudo fica mais difícil quando se tem legitimidade - caso do nosso irmão bolivariano de Caracas.
Mas temendo não menos uma ditadura um tanto duradoura.

repressão não é a solução.
quebra consitucional muito menos.

- de qualquer modo, Honduras não pode ser pior que Cuba - que, graças ao nosso amigo Fidel, juntou o indesejado ao desagradável: ditadura, repressão e ilegitimidade assim, pacotão 3 em 1.

Sem blá blá blá socialismo = ditadura. Isso não foi proposto por Marx - o grande idealizador socialista.
Queria tanto ter visto Allende no poder.
Se ele iria quebrar esse dogma de "socialismo= ditadura" eu não sei.

mas uma coisa é fato: pena não haver "se" na história.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Hesse, sempre Hesse


"- Sempre achamos que são demasiadamente estreitos os limites de nossa personalidade! Atribuímos à nossa pessoa somente aquilo que distinguimos como individual e divergente. Mas cada um de nós é um ser total do mundo, e da mesma forma como o corpo integra toda a trajetória da evolução, remontando ao peixe e mesmo a antes, levamos em nossa alma tudo o quanto desde o princípio está vivendo na alma dos homens. Todos os deuses e todos os demônios que já existiram, quer entre os gregos, os chineses ou os cafres, todos estão conosco, todos estão presentes, como possibilidades, desejos ou caminhos. Se toda a humanida perecesse com exceção de uma só criança medianamente dotada, esse menino sobrevivente tornaria a encontrar o curso das coisas e poderia criar tudo de novo: deuses, demônios e paraísos, mandamentos e proibições, antigos e novos Testamentos.


- Pois bem - objetou-lhe Sinclair. -Mas que fim leva o valor do indivíduo? Para que aspiramos a algo se já temos tudo concluído em nós mesmos?


- Alto lá - exclamou Pistórius com força- Há muita diferença entre levarmos simplesmente o mundo em nós mesmos e conhecê-lo. Um louco pode expor idéias que lembram as de Platão e um colegial devoto pode criar em sua imaginação profundas conexões mitológicas que aparecem nas doutrinas dos gnóstico ou de Zoroastro. Mas sem sabê-lo! E enquanto não sabe, é uma árvore ou uma pedra, ou quando um animalzinho. Não creio que se possam considerar homens todos esses bípedes que caminham pelas ruas, simplesmente porque andam eretos ou levem nove meses para vir à luz. Sabes muito bem que muitos deles não passam de peixes ou de ovelhas, vermes ou sanguessugas, formigas ou vespas. Todos eles revelam possibilidades de chegar a ser homens, mas só quando vislumbram e aprendem a levá-las em parte à sua consciência é que se pode dizer que possuem uma..."


[trecho de DEMIAN, Herman Hesse]


esse cara é simplesmente sensacional.
um dos meus favoritos.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

http://www.youtube.com/watch?v=VKpcr0EtZZg&feature=player_embedded

cabeça de alfinete



férias, tão sonhadas férias...
às vezes acho que um dia nossa cabeça é como um alfinete: um nada perto do MUNDO de informação que nos rodeia.
e é preciso tomar cuidado. se não, um dia, o alfinete estoura.

domingo, 28 de junho de 2009

a arte indesejada


14 de abril de 1928,


De fato a miséria que aflige tantos compatriotas inquieta-me o espírito. Parece difícil encontrar em nosso país um caminho que permita a resolução do problema, ou uma simples amenização dele, que seja. Nota-se hoje uma podridão que corrói as instituições políticas do país, estando o povo sempre abaixo de todas as esferas do poder, sem chances reais de integrá-las mas sendo direta e constantemente afetado por elas.

As artes devem retratar o que emociona, o que comove. Porém isso não do belo o ÚNICO tema de quadros, livros, músicas. O feio, o grotesco, o que causa conforto e desperta ojeriza à maioria dos homens também deve ser discutido, pintado, escrito, ouvido. Por isso, sendo homem contemporâneo de minha época, sinto dever cumprir a função a que poucos se prestam e a que outros raros valorizam: a representação do indesejável, do ignorado, da pobreza que afeta a tantos e que preocupa tão poucos.

Nas últimas semanas, venho arquetitando um projeto a ser concretizado futurament, quando eu melhor tiver desenvolvido minhas técnicas e minha maturidade como pintos. Nesse projeto, essa miséria não será detalh,e sim a temática que regerá minhas obras. Quadros que exponham de maneira FRIA a aromaticidade contida na miséria que é tão banal em cenários como o nordeste brasileiro. É na caatinga que desenvolverei cenas típicas vividas por retirantes - homens que não possue moradia, alimento ou qualquer outra coisa além da própria além da própria vida. Penso em um quadro que exponha o clímax dessa tensão. O momento em que o retirante se depara com algo desconhecido, uma sombra única em meio à vermelhidão da seca: a morte.

Além do corpo ósseio, dos rostos cavados pelo privação e da fisionomia marcada pelo sofrimento, penso em realçar a dor causada pela morte aytravés do retrato de uma criança: será ela - pequena, frágil, morta - a maior vítima dessa organização que destrói vidas e extingue, dia após dia, a humanindade necessária para uma socieadde menos injusta.

Que a arte seja o meio por que eu mostre essa realidade de muitos para aqueles que a desconhecem. O que essa mesma arte permita-se tocar aqueles outros que cruelmente tentam ignorar essa vergonha.



Cândido.