sexta-feira, 26 de novembro de 2010

de prazeres molhados

"Toco a tua boca, com um dedo toco o contorno do tua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a tua boca se entreabrisse e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha não escolheu e te desenha no rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto e que por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha".

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

de nostalgias

de reflexões na madrugada, música revivida e muita... muita saudade.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

das Mulheres

E Sto. Tomás, depois de Aristóteles, decreta que a mulhjer é um ser incompleto, um ser "ocasional". É o que simboliza a história do gênese em que Eva aparece como extraída, segundo Bossuet, como um "osso supranumerário" de Adão. A humanidade é masculina e o homem define a mulher não em si mas relativamente a ele; ela não é considerada um ser autônomo. [...] Ela não senão o que o homem quer que ela seja. [...] A mulher determina-se  e diferencia-se em relação ao homem  e não este em relação a ela; a fêmea é o inessencial perante o essencial. O homem é Sujeito, Absoluto; ela é o Outro.

A categoria do Outro é tão original quanto a própria consciência. [...] Levi-Strauss pôde concluir: "A passagem do estado natural ao estado cultural define-se pel aptidão, por parte do homem, em pensar as relações biológicas sob a forma de sistema de oposições: a dualidade, a alternância, a oposição e a simetria, que se apresentam sob formas definidas ou vagas, constituem menos fenômenos  que cumpre explicar que os dados fundamentais da realidade social". [...]

Por que as mulheres não contestam a alteridade do macho? Nenhum sujeito se coloca  imediata e espontaneamente  como inessencial;  não é o Outro definindo-se como Outro define o Um; ele é posto como Outro  pelo Um definindo-se como Um. [...]


De onde vem essa submissão na mulher?


Ecistem outros casos que, durante um tempo, uma categoria conseguiu dominar totalmente a outra. É muitas vezes a desigualdade numérica que confere esse privilégio: a maioria impõe sua lei à minoria ou a persegue.Ma as mulheres não são, como os negros nos EUA ou os judeus, uma minoria: há tantos homens quanto mulheres na terra. Não raro também os dois grupos foram inicialmente independentes [...] e foi um acontecimento histórico que subordinou o mais fraco ao mais forte: a diáspora judaica, a introdução dos escravos na América, as conquistas coloniais são fatos precisos. Nesse casos, para os oprimidos, houve um passo à frente: têm em comum um passado, uma tradição, por vezes uma religião, uma cultura. [...]

Nem sempre houve proletário, sempre houve mulheres. Elas o são em virtude da sua estrutura fisiológica: por mais longe que se remonte na história, elas smpre estiveram subordinadas ao homem. Sua dependência não é consequência de um evento ou de uma evolução, ela não aconteceu. [..]

Em verdade, a natureza, como realidade histórica, não é um dado imutável. Se a mulher se enxerga como inessencial é porque não opera, ela própria, esse retorno. Os proletários dizem "nós". Os negros também. Apresentando-se como sujeitos, eles transformam em "outros" os burgueses, os brancos.  As mulheres - salvo em cerrtos congressos - não dizem "nós". os negros dizem "as mulheres" e elas usam essas palavraspara se designarem a si mesmas: mas não se põe autenticamente como Sujeito.

os proletários fizeram a revolução na Rússia, os negros no Haiti,  os indo-chneses bateram-se na Indo-China. A ação das mulheres nunca passou de uma agitação simbólica: só ganharam o que os homens concordaram em lhes conceder; elas nada tomara: elas receberam. [...]

Vivem dispersas entre homens, ligados pelo habitat, pelo trabalho, pelos interesses ecnonômicos, pela condição social a certos homens - pai ou marido - mais estreitamente do que as outras mulheres. Burguesas são solidárias dos burgueses e não das mulheres proletárias; brancas dos homens brancos e não das mulheres pretas.

O proletariado poderia propor-se o trucidamente da classe dirigente; um jude, um negro fanático poderiam sonhar com possuir o segredo da bomba atômica e constituir uma humanidade inteiramente judaica ou inteiramente negra: mas mesmo em sonho a mulher não pode sonhar em exterminar os homens. O laço que a une a seus opressores não é comparável a nenhum outro. A divisão dos sexos é, com efeito,  um dado biológico e não um momento da história humana. [...]

O casal é uma unidade fundamental cujas metades se acham presas indissoluvelmente uma à outra: nenhum corte é possível numa sociedade na sociedade por sexos. Isso é o que caracteriza fundamentalmente a mulher: ela é o Outro numa totalidade cujos dois termos são necessários um ao outro.


 (trecho da introdução de "O Segundo Sexo", Simone de Beauvoir)

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

da Outra

Paz, eu quero paz
Já me cansei de ser a última a saber de ti
Se todo mundo sabe quem te faz
chegar mais tarde
Eu já cansei de imaginar você com ela

Diz pra mim
se vale a pena, amor
A gente ria tanto desses nossos desencontros
Mas você passou do ponto
e agora eu já não sei mais...


Eu quero paz
Quero dançar com outro par
pra variar, amor
Não dá mais pra fingir que ainda não vi
As cicatrizes que ela fez

Se desta vez
ela é senhora deste amor
Pois vá embora, por favor
Que não demora pra essa dor
sangrar.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

do não-dito

O que sentimos vibra além dos papéis, das afinidades, da roupa de gente que usam. Toca o que a gente não vê. O que não passa. O que é (…) Com eles, o coração da gente descansa. Nós nos sentimos em casa, descalços, vestidos de nós mesmos. O afeto flui com facilidade rara. Somos aceitos, amados, bem-vindos.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

de uma viagem futura

Crônica da cidade de Santiago


Santiago do Chile mostra, como outras cidades latino-americanas, uma imagem resplandecente. Por menos de um dólar por dia, legiões de trabalhadores lustram a máscara da cidade.

Nos bairros altos, vive-se como em Miami, vive-se em Miami, miamiza-se a vida, roupa de plástico, comida de plástico, gente de plástico, enquanto os vídeos e os computadores domésticos se transformam em perfeitas contra-senhas da felicidade.

Mas os chilenos são cada vez menos, e cada vez são mais os subchilenos:
a economia os amaldiçoa, a polícia os persegue e a cultura os nega.

Alguns viram mendigos. Burlando as proibições, dão um jeito para aparecer debaixo do sinal fechado ou em qualquer portal. Há mendigos de todos os tamanhos e cores, inteiros e mutilados, sinceros ou fingidos: alguns, na desesperação total, caminhando na beira da loucura; e outros exibindo caras retorcidas e mãos trêmulas graças a muito ensaiar, profissionais admiráveis, verdadeiros artistas do bom pedir.

Em plena ditadura militar, o melhor dos mendigos chilenos era um que comovia dizendo num lamento:

— Sou civil.

do mal de acostumar-se

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.



- de pensar que o comum tornou-se raro. Pior: artificial. Na real, eu nem lembro direito quando isso começou, mas só sei que está assim. Acho que, no fundo, sei quando se intensificou, mas não do POR QUE, do PONTO DE PARTIDA. E pior ainda: não sei como parar com isso. E mais pior ainda: não sei se quero parar. Por que eu tô tranquila e nao quero (melhor, não ADMITO) que ninguém quebre ou ameace isso. Esse sentimento de plenitude é raro e só lembro de tê-lo vivido assim, com essa fome e veracidade uma vez. Mas alguma poucas vezes, eu me pergunto se estou tão plena assim. Porque ando mexida, ou melhor: minimamente pensativa. Querendo descobrir e também esquecer. Do que foi bom. Do que fazia isso tudo ter TANTO sentido. E do quanto eu me sentia bem conversando, partilhando, rindo, discutindo. Na real, acho que isso tudo me parece TÃO ANACRÔNICO - não consigo me imaginar fazendo isso com uns e outros hoje. Eu temi, por uns poucos instante, mas hoje não temo mais. Lamento, apenas. Que tudo esteja se perdendo assim.. tão de repente e até mais rápido que a construção. Mas destruir é tão mais fácil que construir, acho que isso é comum. É ruim, mas nada disso mais parece ter sentido pra mim. Não é natural e eu já não faço muita questão. Ainda não se tornou indiferença mas.. to sentindo que não falta muito. Comecemos, pois, a contagem regressiva.