sexta-feira, 21 de maio de 2010

num futuro não muito distante...

Comprando o que parece ser
Procurando o que parece ser
O melhor pra você
Proteja-se do que você
Proteja-se do que você vai querer
Para as poses, lentes, espelhos, retrovisores
Vendo tudo reluzente
Como pingente da vaidade
Enchendo a vista, ardendo os olhos
O poder ainda viciando cofres
Revirando bolsos
Rendendo paraísos nada artificiais
Agitando a feira das vontades
E lançando bombas de efeito imoral
Gás de pimenta para temperar a ordem
Gás de pimenta para temperar
Corro e lanço um vírus no ar
Sua propaganda não vai me enganar
Como pode a propaganda ser a alma do negócio
Se esse negócio que engana não tem alma
Vendam, comprem
Você é a alma do negócio
Necessidades adquiridas na sessão da tarde revolução não vai passar na tv, é verdade
Sou a favor da melô do camelô, ambulante
Mas 100% antianúncio alienante
Corro e lanço um vírus no ar
Sua propaganda não vai me enganar
Eu vi a lua sobre a Babilônia
Brilhando mais do que as luzes da Time Square
Como foi visto no mundo de 2020
A carne só será vista num livro empoeirado na estante
Como nesse instante, eu tô tentando lhe dizer
Que é melhor viver do que sobreviver
O tempo todo atento pro otário não ser você
Você é a alma do negócio, a alma do negócio é você
Corro e lanço um vírus no ar
Sua propaganda não vai me enganar

[Propaganda, Nação Zumbi]


ao ler essa letra, senti uma coisa muito ruim - uma falta de letras minimamente inteligentes, que te provoquem e te façam pensar. Sensação a mesma que senti no show dos Raimundos na virada cultural (Raimundos, que juntavam humor do mais sarcástico com pontas minimamente provocativas). mais uma vez, vem em meu pensamento uma cena que provavelmente viverei - seja com filhos e / ou sobrinhos. Em pleno almoço de família, um dos pseudo- adolescentes chega pra mim e pergunta:

- tia, o que que tinha de bom quando vc era mais nova?
- de bom.. como assim? - responderei, como que tentando disfarçar o assunto e chamar todos pra almoçar, em pleno domingão na casa da vó.
- de música tiiia...
- hã... (putaquepariu, que que eu vou dizer agora? eu era bebê quando o NIRVANA explodiu, Guns'n'Roses já estava praticamente aposentado, Caetano Veloso já fazia  show pela Europa APENAS, Elis Regina já havia morrido, Chico Buarque já pertencia às páginas dos livros de história, Janes Joplin já era puta nostalgia, Titãs só ia na virada cultural pra memorizar sucessos e foi o meu pai, e não eu, quem conseguiu pegar o show do Queen no Morumbi).

[5 minutos se passam, após uma busca frenética por algo minimamente não vergonhoso]

- Ah... quando a tia era mais nova, começou um novo estilo de música - que chamamos "emocore", sabe?
- "emocore"?
- sim, aquelas músicas de rock (engasgo ao dizer isso) com aqueles mocinhos (outro engasgo) com roupas coloridas, pentiados inusitados  (what the fuck?!) tocando músicas que diziam sobre sentimentos.
- ahh, vc tá falando daquelas bixas egocêntricas com franjas de gel, gloss e sombra no olho, que precisam se fantasiar pra entrar no palco e que fingem que tocam música mas que na verdade só sabem falar do chifre que nem chegaram a levar da namorada e do dia que tá lindo, do sol que está se abrindo e essas baboseiras comerciais todas?
- ah, se você pensa assim.
- ah tia, pelo amor vai.. além disso daí, o que mais tinha?
- bom, também estava muito na moda o "sertanejo universitário". Os caras vão em arenas enormes fazer show e muitos grupinhos de faculdade iam.
- Ah, depois que o forró universitário faliu, eles resolveram mudar de estilo e adotaram um sertanejo universitário?
- mais ou menos isso.

[eu com cara de bunda, sobrinho com cara de DECE-PÇÃO)


- ah - disse animada, com uma idéia que poderia mudar UM POUCO a concepção do sobrinho - quando eu era adolescente explodiu uma das maiores expressões de música POPULAR, que veio do povão mesmo.
- ah.. e qual é?
- o funk. vc sabe? Ele tem um quê muito social, tem uma batida forte, muitos traduzem a realidade vivida em muitas favelas e...
- ah tia, nem sempre hein? e quando vão aquelas mulheres-fruta (melancia, melão, jaca e tudo mais o que a feira dominical comportar) na Luciana Gimenez, berrando músicas que só tem refrão e tremendo a bunda gigantesca celulitizada na frente da câmera? que realidade social elas traduzem?



- ... então meninos, vamos almoçar?

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